sábado, 28 de junho de 2014

Gravidade, incertezas, medos...

Fomos desenganados. Dada a gravidade do tumor, os médicos quiseram preparar a família para o pior. Normal. Aposentadoria por invalidez, incapacidade profissional, impossibilidade de dirigir um carro novamente, entre outras limitações. Fiquei realmente assustada e chorei, chorei muito! Chorei porque não me sentia incapacitada. Tirando uma certa insensibilidade na parte direita do meu corpo, a perda parcial da visão periférica, uma pressão no ouvido e uma lentidão de raciocínio matinal (famoso "pega no tranco"), tudo me parecia normal. Eu acho que por isso tinha tanta dificuldade de entender a gravidade da doença, não era questão de negação, era incapacidade de compreender. Passei semanas assim, eu não negava a existência do câncer tampouco a sua gravidade, mas eu não me sentia doente. As pessoas ao meu redor estavam apavoradas, os olhares eram constrangedores e a minha vontade era de me isolar. Depois eu entendi que na verdade as pessoas estavam sendo solidárias e não estavam com pena. Então um dia, durante uma consulta de rotina com a oncologista, ela me disse: "pra mim, acredito que após o tratamento, você estará apta a retornar ao trabalho, está a partir de agora liberada para sair, passear, ir ao cinema, não tem restrição alimentar, pode pintar a unha, enfim, pode retornar à vida normal, sem extravagância". Vida normal... Aquilo ecoou na minha cabeça. Mas afinal, o que era ter uma vida normal a partir de agora? Nunca mais a vida será normal pra mim. Normal é fazer check-up todos os anos, não encontrar nada de grave ou sério e seguir com a vida. No meu caso a incerteza vai rondar sempre. E o medo da recidiva? E o que aguarda os meus filhos em termos de genética? E mais irônico, quando você mais precisa do sistema é quando você menos pode contar com ele. Se por ventura eu não pudesse mais trabalhar onde trabalho, ficaria a mercê de um sistema de saúde falho para todos os que dele dependem. Além de lidar com as inseguranças, com as incertezas, ainda temos que lidar com os medos. Mas quem me conhece sabe que eu não entrego os pontos com tanta facilidade e auto piedade é uma palavra que não existe no meu dicionário. Com ajuda de Deus eu vou vencer, ou seja o que Ele quiser, vou me resignar. Um dia a cada dia, um passo de cada vez, assim decidimos William e eu. Fé!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

João de Deus, uma experiência inesquecível.

Espiritualidade, fé, religião, só acredita quem tem e o meu intuito é contar uma história, não tenho pretensão de catequizar ninguém. Trata-se tão somente de relatar uma experiência maravilhosa que vivenciei naquele santuário de energia positiva e que gostaria de compartilhar. Murillinho me falou de João de Deus ainda no hospital. Já tinha ouvido falar dele no trabalho, os suíços o procuram com bastante frequência, ouvira falar através de amigos, da busca pela cura, mas confesso que tinha um certo receio. Não sei exatamente o que era, não sei se o medo do inexplicável, ignorância, falta de informação... Concordei na hora em ir a Abadiânia conhecer mais sobre esse dom de cura que lhe foi atribuído. Saímos de casa às 5h da manhã, um frio de rachar, todos de branco. Chegamos bem cedo e lá pela 8 da manhã já estávamos na primeira fila, que na verdade se revelou ser a última fila. Pessoas prestam seus depoimentos, falam de suas experiências de cura, de fé, oram, tramitem energias positivas. Tudo o que é passado ali é positivo nessa perspectiva de cura, de luta. Não há espaço para negativismo, o que as pessoas buscam ali é esperança. Em um determinado momento as filas se formam e as pessoas que já frequentam ou estão em tratamento, aos poucos vão se aglomerando para ter contato com João de Deus, já incorporado em entidade. Por fim é a vez dos novatos. A entidade sabe do que você precisa. Não é necessário verbalizar, mas eu optei em fazê-lo, precisava naquilo naquele momento, até mesmo pra mim, não tinha ainda falado sobre a minha doença. Cai em prantos. Ele que tinha uma receita em mão, se retraiu e me anunciou que me operaria às 14 horas. Fiquei muito emocionada e me senti infinitamente abençoada. Sai dali não somente numa paz indescritível como também leve como uma pluma. Seguimos para alguns esclarecimentos e tomamos uma sopa terapêutica. Almoçamos e voltamos para outro ciclo de palestras e oração. A cirurgia espiritual nada tem a ver com a cirurgia tradicional, embora a pessoa possa optar por uma cirurgia aberta. Nesse caso a entidade tem contato com o paciente. No meu caso, optei pela espiritual. A entidade sabe das suas necessidades e trabalha as suas necessidades, na medida de suas possibilidades. Os operados se reúnem numa sala onde, coletivamente são tratados dos seus males. Ao sairmos, fomos novamente orientados e ao final de 7 dias, dormimos de branco, colocamos um copo de água na cabeceira e pedimos às entidades que nos retirem os pontos. No dia seguinte, tomamos a água ao acordar, fazemos uma oração agradecendo as entidades a retirada dos pontos. Voltamos entre 8 e 60 dias para dar seguimento ao tratamento, fazendo uma revisão. E estranhamente parece mesmo como uma cirurgia, depois do resguardo, você se sente restabelecida, disposta, mais forte. Durante o processo, eles deixam bem claro que o tratamento espiritual não substitui o tradicional e vice-versa, ambos são complementares. A fusão da ciência e da fé são fundamentais. João de Deus foi uma experiência fantástica e inesquecível. Um dia, tenho esperança de que serei eu a dar o meu depoimento de sucesso e superação.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Oi, meu nome é Ana Claudia, tenho 41 anos, casada, com dois filhos!

Permitam-me contar um pouco da minha história recente. Há pouco mais de um mês recebi um diagnóstico avassalador. Sou portadora de uma doença chamada de glifoma de nível 4. Simplificando, um câncer do cérebro, não operável. Os prognósticos eram os mais pessimistas. Ainda de acordo com os médicos, não é geralmente um câncer que acomete pessoas da minha faixa etária, esse câncer se dá em pessoas de 65 a 80 anos. E tudo começou com uma dor de cabeça. Fui ao hospital no dia 02 de maio de 2014. Não tenho o hábito de usar remédios e dor de cabeça me acontece uma vez por mês, no período pré-menstrual. Essa é uma parte boa de se observar, de se conhecer. Lembro que, quando a coisa apertou, tomei fluoxetina para aplacar a irritação, mas não consegui tomar por mais de um mês, parecia perder o controle sobre mim mesma e renunciei. Mas naquele 5 de maio eu estava com dor há 5 dias, o que não era comum. Estava irritada, sem paciência, não estava conseguindo raciocinar e estava confusa. As palavras falhavam. Cheguei ao hospital às 11 horas, e depois de 2 exames laboratoriais, passei por duas ressonâncias. Sem poder me comunicar com a minha família, recebi um papel da médica que me atendeu dizendo que precisava procurar um profissional específico, mas nessa altura, não consegui entender ou ler o que estava escrito no papel. Sabe-se lá como cheguei em casa, mas cheguei. Foi Deus, ele me guiou até em casa. Estava em estado de choque. Só me lembro de pedir ao meu marido para cuidar dos meus filhos. Apaguei!

O dia ¨D¨ de despertar, uma história de fé.

Uma corrente de oração, solidariedade e de amor foi se formando. Meus familiares e meus amigos estavam em choque, mas unidos no propósito de me ajudar. Fui sendo incluída nas mais diversas listas oração. Católicos, protestantes, crentes, espíritas, adeptos do candomblé, todos juntos na fé. E algo aconteceu, talvez eu nunca consiga explicar verbalmente, na verdade, tenho quase certeza que nunca vou conseguir explicar essa força. Algo especial e único aconteceu naquele momento. Eu recebi um chamado, e embora não saiba exatamente de onde veio, a anunciação do meu retorno foi feita pela Graça, mãe da Sabrina. Ao que parecia, a minha missão ainda não tinha se encerrado e estava ganhando uma nova chance. A chance de não renunciar, de não me entregar. Como recusar tal chance? Como não me agarrar a ela com afinco? Naquele momento entendi que a minha batalha estava apenas começando. Decidimos, William e eu que passaríamos a viver daqui pra frente cada dia de cada vez, um passo após o outro.

Confusão, negação, e a manifestação da doença.

A última coisa da qual me lembro foi meu pai me perguntando se precisava de algo, já deitada em uma maca no hospital. Tudo o que se passou depois não passam de relance. Fiz a biopsia, acordei, voltei a apagar, e de lá até acordar de vez não lembro de grandes coisas. Fazendo uma análise da situação hoje, vejo que a parte emocional influenciou demais da piora do quadro geral. O edema gerou muita confusão e eu simplesmente não conseguia formar uma frase com coerência. A simples palavra "árvore" era de uma complexidade absurda. Não conseguia pensar em outra coisa do que nos meus filhos. Depois de fazer a biopsia não passei bem e voltei ao hospital. Entrei em coma e assim permaneci por 3 dias. Parte do meu corpo se contraiu e os prognósticos não eram mais tão bons. 60% dos meus sinais respondiam. William foi aconselhado a dormir com o celular ligado. As orações se intensificaram e a corrente se transformou em uma energia indescritível. Impossível verbalizar, mas foram elas que me trouxeram de volta à vida. Mas isso é definitivamente um capítulo à parte dessa história.