A vida tem os seus caminhos misteriosos mesmo. Há momentos em que precisamos renunciar, mudar o foco, abandonar momentaneamente os sonhos, viver a vida mais leve, deixar de fazer planos para viver cada dia de uma vez, desacelerar, contemplar...
sábado, 12 de julho de 2014
Radioterapia: seus laços e seus vínculos.
Nas primeiras sessões de rádio, fiquei chocada com a quantidade de pessoas fazendo a terapia. Quando não faz parte da nossa realidade não tem como saber, não é mesmo? Uns vão com seus shortinhos, outros com suas camisas e outros, como eu, com suas máscaras de Homem-Aranha. Cada um com a sua história de luta e de tentativa de superação.
A coisa funciona assim: temos o nosso horário fixo, o meu por exemplo é às 12h. Quando chego, geralmente, a minha "tchurma" está lá. Tenho um colega que tem câncer na carótida, que geralmente está só, sem acompanhante, um que tem câncer na próstata, que está sempre acompanhado de sua filha, tem a minha querida amiga Graça, que depois de 8 meses de espera, muita dor de cabeça e sofrimento e uma incrível insensibilidade da parte de um plano de saúde que nem pra limpar o traseiro serve, que veio substituir uma outra colega que acabou as suas sessões...
Na sala de espera, quando a única máquina que serve a todos e mais um pouco resolve travar, pifar, fumegar ou simplesmente parar, tudo atrasa, mas ao contrário do que se pensa, ninguém quer ir embora. O que é um punzinho pra que está... E é nessas horas que a conversa rola solta e os vínculos de amizade se criam. As pessoas ali dividem suas histórias de luta, de recidiva, alguns são muito jovens, outros nem tanto, mas raramente vejo alguém se queixando. Raramente, meus amigos, vejo alguém se queixando. Acho isso fantástico! Essa realidade comum a nós cria essa interdependência e por isso sofremos quando algum de nós termina a terapia e se vai, aquele vínculo se desfaz e a gente sente falta da presença daquela pessoa. Louco, né?
A gente também cria laços com os técnicos, que são pessoas muito queridas. Geralmente, as mulheres preparam pão de queijo, bolos e gostosuras. É a nossa forma de reconhecimento pela dedicação, faz bem pra nossa alma, eu pelo menos adoro!
Não sei como vai ser quando a terapia acabar, só sei que nem planejar o sofrimento por antecipação eu posso mais. :)
domingo, 6 de julho de 2014
Bulas e fórmulas
Eu sempre gostei de uma bula de remédio. Meus meninos ficavam doentes e lá estava eu colada na bula pra estar ao corrente dos efeitos adversos que por ventura eles pudessem ser vítimas. Posologia, efeitos adversos, interação medicamentosa, se tinha que comer antes, se poderia dar dor de estômago... A única coisa que eu realmente não entendia era a parte de química, não menos intrigante, confesso...
Bulas de tamanho normal, coisa de no máximo um antibiótico, numa sentada rápida era possível ler tudo.
Aí veio o câncer e as bulas viraram verdadeiros livros de literatura médica. Pra não dizer que eu estou mentindo, deem uma olhada na bula do trimedal:
O remédio é o que há em termos de tecnologia da medicina, não posso reclamar de nada! Em mim, não me dá efeito colateral algum, salvo um pouco de cansaço. Mas a bula assusta. Você acha que eu li? Nunca! Em time que está ganhando a gente não mexe. Agora francamente, se fosse tecido, dava pra fazer um vestido de noiva, com véu, grinalda e calda de 3 metros!
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